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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Universa

Caso Carrefour: 9 dicas para diminuir o sofrimento de animais

1) Adote em vez de comprar 

"Amigo não tem preço, criadores exploram as matrizes e produzem ninhadas frequentemente doentes, e não faltam candidatos precisando de um lar. Dá para adotar, inclusive, animal de raça, descartado quandoquando frustra expectativas. Se você já comprou, não se sinta mal. Ajude a conscientizar os outros, ame esse serzinho até o último suspiro, porque todos merecem, e adote o próximo", ela diz.

2) Não ignore o abandono  

Ficou claro que não é para jogar bicho na rua, certo? Mas é menos óbvio que a gente não deve deixar de fazer algo só porque pode fazer pouco. Um prato de comida muda o dia de quem sente fome.

3) Aja coletivamente

Para salvar uma vida, quatro requisitos básicos: dinheiro para ração e veterinário, um cantinho temporário (se for gato, serve até banheiro), texto para divulgação nas mídias sociais e fotos sensibilizadoras. "Cada um pode colaborar com o que faz de melhor, assim ninguém fica sobrecarregado.

4) Apoie o trabalho de ONGs

Articulação não é seu forte? Falta tempo? A família fica reclamando? Doe grana para quem bota a mão na massa. Organizações não governamentais raramente recebem incentivos do governo. E desempenham funções que deveriam ser dele.

5) Pressione os políticos eleitos

O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) foi criado para proteger o ser humano de doenças transmissíveis pelos animais e, mesmo com o atual acúmulo de papéis, faltam políticas públicas efetivas de castração em massa, adoção e educação da população.

6) Denuncie maus-tratos

Estudos do FBI mostraram que 80% dos psicopatas começam seus crimes abusando de animais. A denúncia é anônima e, em São Paulo, pode ser feita pela internet.

7) Considere o veganismo  

Toda criação para atender demandas estratosféricas é cruel, incluindo a de leite e ovos. Mas você pode começar fazendo a Segunda sem Carne, campanha idealizada pelo ex-Beatle Paul McCartney em 2009. Pensa: um dia da semana reservado para descobrir novos sabores.

8) Valorize empresas pró-bicho  

Compre produtos não testados em animais. Boa parte deles você encontra ao lado dos tradicionais, no mercado comum mesmo. E eles geralmente custam mais barato. O único inconveniente é o trabalho de pesquisar as marcas, mas a internet facilita.

9) Dê exemplo de compaixão  

Ensine as crianças a respeitar os animais, arrisquem um trabalho voluntário juntos, escolha uma ONG para presentear com sua ajuda no Natal.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

BBC NEWS

Por que um casal brasileiro deixa seu filho brincar com onças-pintadas


Tiago com duas onças no rioDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image caption
Uma foto de um menino ao lado de duas onças-pintadas viralizou recentemente na internet. Alguns acharam que era montagem, mas a imagem é real
Um garoto acompanhado de duas onças-pintadas em uma lagoa. Ele demonstra conforto com a situação e faz carinho em um dos felinos, enquanto o outro animal está com uma pata encostada no ombro esquerdo do jovem. A cena, que causou estranheza nas redes sociais nas últimas semanas, faz parte da rotina de Tiago Jácomo Silveira, de 12 anos, desde que ele era recém-nascido.
A imagem do garoto foi publicada, inicialmente, pelo próprio pai, o biólogo Leandro Silveira, de 49 anos. Depois, a fotografia foi compartilhada em páginas de Facebook e perfis do Instagram.
Em uma publicação feita no dia 23, um usuário do Facebook compartilhou a imagem de Tiago com as onças. A fotografia teve mais de 2 mil compartilhamentos e 22 mil reações, sendo as mais comuns delas o "amei" e o "uau". Na postagem, não há explicação sobre a origem do registro. Nos comentários, alguns disseram tratar-se de montagem, enquanto outros elogiaram a coragem do jovem.
Para Tiago, a repercussão da foto foi uma surpresa, pois considera se tratar de uma situação comum em seu cotidiano. O garoto frisa que muitas pessoas se surpreendam com o fato de ele conviver com onças-pintadas.
"Eu tenho alguns amigos que não acreditam nisso, acham que é 'fake'. Mas a maioria dos meus conhecidos acha isso muito legal e tem vontade de conhecê-las. Eu acho muito bom poder levar um pouquinho dessa experiência de vida que tenho para outras pessoas que não tiveram a mesma sorte que eu", afirma à BBC News Brasil.
Além do pai do garoto, a mãe, Anah Tereza Jácomo, de 49 anos, também é bióloga. Os dois coordenam o Instituto Onça-Pintada (IOP), que tem o objetivo de preservar e estudar o maior felino das Américas.
"O meu filho nasceu em um ambiente com onças-pintadas. Então, ele convive bem com elas desde a infância e sabe como lidar. Logicamente, a gente o instrui e impõe limites, mas hoje ele já sabe o que fazer ou não. É uma questão muito natural para ele", diz Leandro.

Crescendo com as onças-pintadas

Tiago bebê com onça no coloDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionTiago é filho de biólogos que trabalham com a preservação das onças-pintadas
O nascimento de Tiago foi planejado desde o início do relacionamento de Anah e Leandro, que estão juntos há 28 anos. Os biólogos esperaram a conclusão do doutorado para que tivessem um filho.
"Tinha certeza de que ser mãe me privaria, de certa forma, da minha carreira. Meu marido sempre foi muito companheiro e pediu que concluíssemos os estudos primeiro, porque, na visão dele, não seria justo eu me afastar da carreira durante a maternidade, ao passo que a dele estaria em plena ascensão", diz.
Após o doutorado, Anah e Leandro decidiram que era o momento de ter um filho. Na época, eles já haviam criado o Instituto Onça-Pintada e passavam o dia lidando com estudos sobre felinos. Quando Tiago nasceu, o casal cuidava de três onças-pintadas recém-nascidas.
"Nessa época, íamos viajar de caminhonete, para resolver questões do instituto, e levávamos o nosso filho e as onças juntos. Ele ia no colo da minha esposa e elas iam perto da gente, para não se machucar. No trajeto, muitas vezes parávamos para dar mamadeira para ele e para as onças. Isso aconteceu muitas vezes", relata Leandro.
Em razão do convívio que teve com os animais desde pequeno, Tiago sempre considerou natural a proximidade com onças-pintadas. "O referencial dele é baseado na gente. Ele foi crescendo e aprendendo os limites, vendo o que poderia ou não fazer. Mas, para ele, é algo muito comum esse relacionamento, porque foi criado em um ambiente rural. Esse é o cotidiano dele. Não há nada de absurdo", afirma Leandro.
O garoto se considera privilegiado por ter se relacionado com as onças-pintadas desde pequeno. "Sempre foi uma relação de amor e respeito. Sempre gostei muito disso e sempre ajudei a cuidar dos animais", comenta.
Tiago ressalta que segue as instruções dos pais para lidar com os bichos. "Eles me ensinaram que o medo e o respeito são sentimentos importante e inteligentes. Porque quando você não tem medo e não respeita o animal, você não respeita o limite dele e, por isso, ele também acaba não te respeitando", pontua.
Tiago, os pais e a onçaDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionOs pais de Tiago o ensinaram desde pequeno como deveria se comportar perto das onças

Limites do convívio

Desde que o filho era menor, Leandro ensinava ao garoto sobre a conduta que ele deveria ter com as onças-pintadas. O biólogo costuma passar os mesmos ensinamentos a pessoas que desconhecem informações sobre o felino.
"Esses animais não agem contra o ser humano, no sentido de nos ver como presas. Eles reagem às nossas ações. Então, é importante respeitá-los. Por exemplo, se ele está comendo ou nervoso, ele avisa que não quer proximidade, pela linguagem corporal, então é importante respeitar", diz.
"É fundamental entender os limites e não mexer com o animal quando ele não está bem. Não há como forçar algo com a onça-pintada. É importante compreender o momento em que ela quer ficar sozinha e se afastar. Quando ela quiser proximidade, se aproximará. Isso é uma regra fundamental para a convivência. Onça não é um animal social, mas cria laços para a vida inteira", acrescenta.
Segundo a bióloga, nunca houve incidente entre o garoto e as onças - e ela comenta que nunca deixou o filho sozinho com os animais.
"Sempre tivemos muitos cuidados. Não somente com as onças, mas com qualquer outro animal. Mas o mais importante é que o meu filho aprendeu muito cedo como conhecer cada um. Em nosso sítio, as regras de segurança sempre foram muito determinadas, claras e obedecidas", diz.
Tiago com onça filhoteDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image caption'É fundamental entender os limites e não mexer com o animal quando ele não está bem', explicam Leandro e Anah
Na imagem que repercutiu nas redes sociais, uma cadela da raça blue heeler aparece próxima aos felinos. Os bichos mantêm uma relação de proximidade. Na Organização Não-Governamental (ONG), há outros animais, normalmente encaminhados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), como veados, macacos e lobos-guará,. Segundo Leandro, todos vivem em harmonia.
O IOP está localizado na região rural de Mineiros, no interior de Goiás, em uma propriedade de 50 hectares, pertencente ao casal de biólogos. O instituto não é aberto a visitação, para evitar incômodo aos animais ou prejuízo aos estudos realizados no lugar.

Amor por onças-pintadas levou à criação de instituto

Leandro se encantou pelas onças-pintadas ainda na infância, quando assistiu a um documentário sobre os felinos. Anos depois, a paixão pela espécie o levou a cursar biologia. O primeiro estágio dele foi em um projeto que lidava com onças-pintadas. "Foi a primeira vez em que tive contato com a espécie. Depois, nunca mais parei de trabalhar com ela", relata.
Na universidade, ele conheceu Anah, que também cursava biologia. Os dois são de Goiás. Desde a época em que eram estudantes, desenvolvem atividades com o maior felino das Américas. Em junho de 2002, criaram o Instituto Onça-Pintada. O principal objetivo deles era estudar a espécie e ajudar a preservá-la.
Anos após a criação do instituto, uma equipe do Ibama perguntou se Leandro e Anah tinham interesse em receber onças-pintadas recém-nascidas, que eram órfãs e haviam sido resgatadas da natureza. O casal, que não tinha a criação dos felinos como objetivo inicial, aceitou. Para acolhê-los, elaborou um criadouro científico, que hoje ocupa metade da propriedade rural.
Anah, Leandro e Tiago com uma onçaDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionOnças e outros animais convivem em harmonia numa propriedade de 50 hectares pertencentes aos dois biólogos
O IOP está localizado dentro do sítio. Além de 25 hectares para o criadouro, o lugar também é dividido entre a parte destinada aos animais de outras espécies, a área utilizada para os estudos desenvolvidos por profissionais que atuam no instituto e a residência da família.
O instituto é mantido com doações de empresários ou pessoas físicas e por meio de recursos particulares do casal de biólogos. "É uma eterna busca por recursos. Nunca são valores governamentais, porque o poder público nunca nos ajudou. Ultimamente, temos apoio de empresas. Mas 95% dos recursos têm sido particulares, meus e da Anah, por meio de assessorias que fazemos", diz Leandro.
No IOP, atualmente há 14 onças-pintadas. Destas, quatro são filhotes, dois são jovens e há oito adultos. Na última década, 35 felinos passaram pelo lugar. Normalmente, os que deixam o instituto são encaminhados para outros criadouros, para auxiliar na reprodução e preservação da espécie.
As onças-pintadas que chegam recém-nascidas ao criadouro não retornam à natureza porque a principal ameaça a elas, segundo pesquisas do IOP, são os pecuaristas.
"Nesse sentido, consideramos um contrassenso devolver à natureza um animal que já veio para o cativeiro fruto desse conflito", explica Anah. Outro motivo que faz com que os felinos sejam encaminhados a outro criadouro é a necessidade de contato com humanos, que eles desenvolvem no início da vida, por meio da alimentação ou de outros cuidados básicos, em razão da ausência da mãe.
"Esses animais dificilmente perdem o elo com a presença humana e, se soltos, muito fatalmente, caso se aproximem de locais com a presença humana, podem acabar sendo abatidos", acrescenta a bióloga.

Ameaça de extinção

A onça-pintada está presente em 21 países, entre eles Argentina e Estados Unidos. Em alguns, como Uruguai e El Salvador, ela foi extinta. O Brasil concentra a maior parte delas, abrigando 48% da espécie de todo o mundo. No país, o animal também está ameaçado de extinção.
"Temos de 20 mil a 30 mil onças-pintadas no Brasil. Elas são consideradas ameaçadas porque, ao longo dos anos, perdemos mais de 50% da distribuição original delas. A tendência é que, como todos os grandes predadores mundo afora, caso não haja política de conservação, ela seja extinta."
"É um animal que compete com condições humanas, tem riscos aos seres humanos. Então, a tendência do homem é eliminar. Tudo o que gera riscos, gera prejuízo. Se não criarmos uma política direta de compensação aos prejuízos que esses animais causam, ele vai ser eliminado", pontua. Segundo o biólogo, não há nenhum tipo de ação do poder público para a preservação dos felinos.
Tiago e onçaDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionSegundo os biólogos, se as onças-pintadas correm o risco de serem extintas no futuro, se políticas públicas de preservação não forem adotadas
Muitos dos filhotes que chegam ao IOP se tornaram órfãos após as mães serem mortas por produtores rurais, enquanto saíam em busca de alimentos para os filhos. "Há inúmeros filhotes que morrem depois da perda da mãe, por não conseguirem se manter sozinhos. Infelizmente, o número de órfãos que chegam para a gente é muito pequeno, perto do total que fica abandonado", explica Leandro.
Um dos principais trabalhos do IOP é conscientizar a população sobre a preservação das onças-pintadas. Os principais alvos da iniciativa são os produtores rurais. Para auxiliar no diálogo com eles, o instituto criou o Certificado Onça-Pintada. "Propomos valorizar os produtos de proprietários que se comprometem a tolerar os prejuízos causados por onças e jamais abatê-las", diz Anah. Segundo ela, 170 mil hectares de fazendas já aderiram ao selo. "O nosso objetivo é atingir 1 milhão de hectares em 10 anos", revela.
Anah explica que a importância da conscientização dos produtores rurais ocorre porque, no Brasil, 70% das terras estão em áreas privadas. "As unidades de conservação, sozinhas e isoladas, não têm tamanho e não asseguram a conservação da onça-pintada em longo prazo. Dessa forma, ela precisa do proprietário rural para ter a chance de sobreviver", pontua a bióloga.

Preocupação com o futuro

Tiago e filhote de onçaDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionMuitos dos filhotes que chegam ao IOP se tornaram órfãos após as mães serem mortas por produtores rurais, enquanto saíam em busca de alimentos para os filhos
A luta pela preservação das onças-pintadas é conhecida por Tiago desde a mais tenra idade. Há um ano, ele deixou o sítio onde morava com os pais, na sede do IOP, para se mudar para Goiânia, para estudar. O garoto, que está no oitavo ano do ensino fundamental, sente saudades da convivência diária com os bichos.
"Está sendo muito difícil ficar longe dos animais, porque convivi com eles desde pequeno. Toda vez que volto para a casa dos meus pais, sinto que os animais também sentem saudade de mim. Eles me reconhecem e brincam comigo de uma maneira diferente. Isso é muito gratificante, porque vejo que o amor e o carinho que dei para eles anos atrás está sendo retribuído", diz o estudante.
Tiago visita os pais a cada três meses. A foto que viralizou na internet foi tirada durante o feriado da Proclamação da República, em 15 de novembro. No futuro, ele não quer continuar distante do lugar onde nasceu. O garoto planeja cursar biologia e retornar para o sítio da família, onde quer dar continuidade à iniciativa desenvolvida pelos pais.
"Quero fazer biologia, mas não para ser professor. Quero trabalhar com os animais, na prática. Pretendo dar continuidade ao instituto e ajudar meus pais, porque essa é uma causa muito nobre. A gente está tentando salvar uma espécie de extinção e realmente quero continuar com essa luta", declara.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

blog da kikacastro


‘Infiltrado na Klan’: uma história que precisa ser contada e recontada

por Cristina Moreno de Castro
Vale a pena assistir: INFILTRADO NA KLAN (BlacKkKlansman)Nota 10
No Festival de Cannes, um dos mais importantes do cinema mundial. este filme de Spike Lee recebeu seis minutos ininterruptos de aplausos e venceu o Grande Prêmio do Júri. Não foi à toa e prevejo muitos outros prêmios mais adiante, incluindo o Oscar. "Infiltrado na Klan" já é um clássico. Com ele, Spike Lee, que já tem 82 trabalhos no currículo, atingiu seu ápice.
Estamos falando, primeiro, de uma história sensacional, baseada em fatos reais: um policial negro (e blackpower) que se infiltra (com a ajuda do parceiro, judeu) na Ku Klux Klan, em plenos anos 70. Esse policial é Ron Stallworth, que escreveu um livro de memórias contando a história em 2014. O livro foi parar nas mãos de Spike Lee, que não tinha como perder um plot desses e foi em frente na direção.
Estamos falando, ainda, de uma condução excepcional para o que tinha tudo para ser um tema árduo, pesado, difícil. Afinal, trata-se da Ku Klux Klan, uma organização assumidamente racista e antissemita, que prega a superioridade da raça branca e o extermínio de negros. O filme foi lançado um ano depois do massacre de Charlottesville, que demonstrou a força do KKK ainda hoje nos Estados Unidos (talvez mais forte do que nunca, com Donald Trump no poder). Spike Lee usou cenas de Charlottesville para enriquecer o discurso. Mas, apesar disso tudo, e de todas aquelas frases racistas nojentas que são disparadas a cada dois minutos, que nos deixam enojados do lado de cá, não se trata de um filme para ficar sério, tenso, para chorar. Porque Spike Lee é inteligente e sabe como ninguém usar o humor para falar de assuntos árduos. Sabe que o humor é uma ferramenta que enriquece, e não empobrece, como muitos pensam. O humor do filme é inteligente, refinado, sutil. E o roteiro equilibra o trágico no cômico como poucos filmes sabem fazer.
Um dos grandes responsáveis por esse humor é o ator que interpreta o policial Ron Stallworth. E é um ator novato, mas que teve a melhor escola: John David Washington, filho do grande Denzel Washington – que já tinha trabalhado em quatro filmes de Spike Lee. John está sensacional. Leve, cínico, corajoso e bem-humorado, como o Ron real deve ter sido, pra conseguir esse feito de se infiltrar na KKK sendo negro. E de tapear um político que era o supremo diretor da organização e que até hoje exerce liderança na ultradireita americana: David Duke (interpretado pelo também ótimo Topher Grace). O elenco ainda tem o excelente Adam Driver, o veterano Robert John Burke, o pastelão Paul Walter Hauser e o ótimo ator finlandês Jasper Pääkkönen, um dos responsáveis por fazer nosso sangue subir aos olhos em relação ao racismo explícito da KKK.
OK, já temos aí uma história real sensacional, na qual se baseou o roteiro super bem-elaborado, com personagens interpretados por grandes atores (muito jovens, aliás). Tudo sob a batuta do diretor ousado na medida certa pra falar de uma bandeira que já é "velha" nos Estados Unidos, mas parece nunca ser tão necessária (ou parece nunca ser suficiente). No Brasil também, diga-se de passagem. Pra melhorar, temos uma câmera cheia de cortes modernos, temos uma edição que dá ritmo fabuloso à história, principalmente a partir da segunda metade do filme, temos uma trilha de primeira, cheia de soul. É já um clássico, como eu disse.
Pena não ter sido lançado antes das eleições no Brasil, porque os brasileiros estão precisando de relembrar alguns dos momentos mais cruéis da história da humanidade, a fim de que não se repitam por aqui. Agora já era. Vale lembrar: David Duke, o ex-chefão da KKK, personagem deste filme e deste episódio real dos anos 70, foi um dos que elogiaram, em outubro, Jair Bolsonaro, então candidato à presidência do Brasil. É a história engolindo a história engolindo a história...

trailer do filme:


domingo, 25 de novembro de 2018

O filme egípcio "O OUTRO PAR", com apenas 2 minutos de duração, ganhou o prêmio de melhor curta no Festival de Cinema. A diretora tem 20 anos de idade. O filme retrata a Lei do retorno. Faça pelo outro o que gostaria que fizesse por você. Mas sem esperar que o outro retribua. Lei do amor.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

El País semanal

O novo apóstolo da psicodelia

Michael Pollan
Michael Pollan, renomado jornalista e ativista da alimentação saudável, decidiu investigar os novos usos de drogas como o LSD ou a psilocibina no tratamento de depressão, vício e ansiedade associada ao câncer. E de passagem ousou experimentá-las aos 60 anos de idade. Ele conta isso em seu último ensaio
O locutor Patrick Mettes tinha 53 anos quando um artigo mudou sua vida. Seria melhor dizer que a morte o mudou. Doente de câncer de pulmão, soube pelo jornal que na Universidade de Nova York estava sendo usada a psilocibina, princípio ativo dos cogumelos alucinógenos, para aliviar o “estresse existencial” de pacientes terminais. Ele se inscreveu imediatamente, apesar da resistência de Lisa, sua esposa, que associou a decisão a uma recusa em continuar lutando. Mettes viveu mais 17 meses e continuou na luta da quimioterapia, que, segundo Lisa, conciliou com uma plácida aceitação de que o fim estava chegando. Quando a coisa não tinha mais solução, ele fez desfilar seus entes queridos no quarto da unidade de cuidados paliativos do Hospital Mount Sinai para se despedir deles.
Histórias como esta convenceram o jornalista norte-americano Michael Pollan a colocar em jogo sua considerável reputação em um assunto certamente delicado: um estudo sobre o renascimento do uso científico das substâncias psicodélicas em pacientes como Mettes. O resultado é o ensaio Como Mudar Sua Mente (Intrínseca, 2018).
O título original funciona melhor: How to Change Your Mind também pode ser traduzido por “como mudar de ideia”, que foi exatamente o que fez Pollan (Long Island, Nova York, 1953). Fumante ocasional de maconha, estava prestes a completar 60 anos quando decidiu ir um pouco mais longe no caminho íngreme das substâncias alucinógenas. Ele tem a idade de um hippie, mas simplesmente nunca ousou experimentá-las na juventude. “E foi quase melhor assim”, diz ele, “são drogas que convêm tomar quando você já tem a cabeça completamente mobiliada”.
“Nunca ousei experimentá-las na juventude. Foi melhor assim, pois são drogas que convêm tomar quando se é adulto”
Pollan não é um psiconauta ultrapassado, nem o típico autor de literatura enteogênica (sem dúvida, um gênero à parte), mas um jornalista conhecido principalmente por longos artigos investigativos que publica em alguns dos mais prestigiados veículos de comunicação dos Estados Unidos que logo transforma em livros sobre a indústria agroalimentar (O Dilema do Onívoro), a obsessão contemporânea pela alimentação (O Detetive no Supermercado) ou as virtudes de cozinhar, de preferência em família, para além do círculo insuportável da gastronomia (Cozinhar – Uma História Natural da Transformação, que também é uma série da Netflix). Costuma ser definido como um “ativista alimentar” por seu interesse nas implicações “políticas e ambientais” do ato de comer. Colaborou como assessor da Administração Obama e há uma máxima sua que fez tanta fortuna que o perseguirá sempre: “Coma alimentos [de verdade]. Especialmente verduras. Com moderação”. Em 2010, Pollan foi incluído na lista dos 100 personagens mais influentes do ano da revista Time.
Quando lhe digo que agora é mais provável que seja escolhido pela publicação High Times, bíblia nova-iorquina da cultura da cannabis, ele ri e faz uma confissão: “Uma das razões que me levaram a escrever Como Mudar Sua Mente, embora só tenha percebido isso depois, é que meu pai [a quem o livro é dedicado] tinha câncer. Ele morreu em janeiro. Nunca entendi como estava processando a iminência da morte: aos 88 anos, foi perdendo a memória e quando estava em seu juízo perfeito não queria falar sobre o que estava acontecendo. Eu me dediquei a satisfazer minha necessidade de entender com outros pacientes que estava entrevistando para o livro”. No ensaio, Pollan dá conta dos “incríveis resultados dos estudos com psilocibina para o câncer nas universidades Johns Hopkins e de Nova York, que tinham sido publicados [em 2016] em uma edição especial do Journal of Psychopharmacology (...). Cerca de 80% dos pacientes apresentaram diminuições clinicamente significativas da ansiedade e da depressão medidas de maneiras convencionais, um efeito que durou pelo menos seis meses após a sessão”.
Há várias fotografias de seu pai, advogado e homem de múltiplos talentos, na sala elegante — com seu jeito entre tribal e dos anos setenta — em que a entrevista foi realizada. O encontro foi em setembro, em Nova York, na casa de Corky, a mãe, num desses refinados apartamentos da Park Avenue, na parte alta de Manhattan, onde o porteiro anuncia a chegada das visitas por telefone. Para lá se mudou o jovem Pollan em 1971. Agora ele vive com a esposa, Judith, pintora, professora e autora de algumas das pinturas abstratas que adornam a casa da sogra, entre Berkeley, localidade californiana que foi o epicentro da revolução hippie, e Cambridge, lar da excelência educacional de Harvard. Quando não está escrevendo, Pollan dá aulas de jornalismo científico e escrita criativa de não ficção em ambas as universidades.
Uma noite, cerca de 10 anos atrás, durante um jantar com amigos em Berkeley, ouviu a história de uma das convidadas, “uma psicóloga proeminente”, e suas recém-descobertas experiências com LSD, que considerava “intelectualmente estimulantes e valiosas para o seu trabalho”. Pollan perguntou se ela pretendia compartilhar essas descobertas com seus colegas. A mulher olhou para ele como se contemplasse o desvario de um louco.
No dia seguinte, o jornalista remexeu em sua caixa de entrada até encontrar um artigo científico que um tal Bob Jesse lhe enviara alguns anos antes e ao qual ele não tinha prestado muita atenção. O artigo reunia as conclusões de um estudo da Johns Hopkins realizado com 30 pacientes sem experiência lisérgica prévia que receberam “uma dose sintética significativa” dessa droga ou um placebo ativo. Era intitulado: A Psilocibina Pode Ocasionar Experiências de Tipo Místico com um Significado Pessoal Substancial e Sustentado e uma Grande Importância Espiritual, e pretendia demonstrar exatamente isso, o potencial dos cogumelos alucinógenos para aqueles que buscavam um pouco de transcendência. Pollan ficou surpreso com o uso de palavras como “místico” ou “espiritual” em um ambiente normalmente empírico. “Coincidiu com um momento em que sentia que não tinha nada de novo a dizer sobre comida”, recorda. “Então resolvi parar o que estava fazendo e comecei a investigar”.
O autor considera aquele teste clínico um dos marcos iniciais da viagem de retorno da psicodelia à respeitável superfície médica. Os outros dois, ambos de 2006, são a comemoração na Suíça do centenário do nascimento de Albert Hofmann, descobridor do LSD (que morreu aos 102 anos), e a decisão unânime da Suprema Corte dos Estados Unidos de permitir que uma pequena seita importasse do Brasil a ayahuasca, poção alucinógena usada em seus rituais e que contém DMT, uma substância ilegal (os juízes preferiram a liberdade religiosa à proibição aos narcóticos). Assim, inadvertidamente, começou o renascimento da pesquisa científica em torno das drogas psicodélicas, uma “mudança cultural” que tem suas resistências. “Ouvi médicos da Universidade de Nova York dizerem que muitos de seus colegas oncologistas se opunham à administração de alucinógenos aos seus pacientes com câncer”, explica Pollan. “Não gosto da ideia de dar crack a eles, disseram, o que demonstra acima de tudo uma grande ignorância.”
O novo apóstolo da psicodelia
Os detalhes da gênese da primeira onda psicodélica são, como parte da grande história da contracultura, mais conhecidos que os da segunda. Albert Hofmann sintetizou o LSD por acaso em 1938, em um laboratório em Basel (Suíça), mas somente cinco anos mais tarde, quando experimentou a poderosa substância (uma única gota é suficiente para abalar a consciência durante cerca de 10 horas). Naquele dia, Hofmann foi para casa de bicicleta. Durante aquela viagem inaugural, verificou pela primeira vez os efeitos inesperados de sua criatura. A nova droga, que é legalmente exportada para os Estados Unidos pelo laboratório suíço Sandoz, gozou de uma saudável reputação mais ou menos na mesma época em que a experiência com cogumelos mexicanos de um banqueiro de Nova York, R. Gordon Wasson, ocupou a capa da revista Life (que na época tinha uma tiragem de 5,7 milhões de exemplares). Foram os anos da lua de mel entre os alucinógenos e a opinião pública norte-americana. Duas moléculas poderosas, a dietilamida do ácido lisérgico e a psilocibina usada no México e na América Centralhá centenas de anos, deixaram uma marca profunda na história social, cultural e política do século XX, do escritor Aldous Huxley, um entusiasta de primeira hora, ao ator Cary Grant, que cantou as virtudes de uma boa viagem (na verdade, ele se submeteu a 60 sessões, no final das quais sentiu como “a tristeza e a vaidade desapareciam”, segundo disse em uma entrevista em 1959).
establishment psiquiátrico via pela frente um horizonte de possibilidades enquanto Richard Alpert e o extrovertido Timothy Leary faziam experimentos com psilocibina na Universidade de Harvard, que foram proibidos depois de um escândalo na imprensa em 1963. Aqui Pollan situa o fim da época de ouro da pesquisa com psicotrópicos, que até 1977 sobreviveu sigilosamente em uma unidade psiquiátrica do Estado de Maryland para “tratar o alcoolismo, a esquizofrenia e o mal-estar existencial de pacientes com câncer”.
Os historiadores da década de sessenta costumam definir o que veio depois de Harvard com uma imagem eficaz: as drogas psicodélicas saltaram do laboratório para capturar os sonhos e os pesadelos de uma geração que descobriu no LSD um rito de passagem fascinante, assustador e radicalmente diferente das iniciações pelas quais seus pais haviam passado. A coisa já fluía fora de controle quando em janeiro de 1967, ano do verão do amor, cerca de 25.000 hippies ouviram no festival Human Be-In, em San Francisco, o célebre convite “Turn on, tune in and drop out” (Se liga, sintoniza e desencana) da boca de Leary, talvez a figura mais controversa desta história; alguém que em menos de uma década passou de anônimo professor com blazer a um fugitivo da lei com túnica e besta negra da sociedade norte-americana.
Quando os Beatles — depois de suas próprias experiências psicotrópicas — mandaram um conselho camuflado para superar a vertigem inicial e se render a uma experiência lisérgica — “Desconecte sua mente, relaxe e flutue rio abaixo”, cantava John Lennon em Tomorrow Never Knows —, o LSD, já legalizado, era consumido com fins pouco científicos por dezenas de milhares de jovens de cabelos compridos que tinham abandonado o ninho familiar em ritmo de rock psicodélico em busca do sonho hippie. Leary foi considerado “o homem mais perigoso dos EUA” (na definição de Nixon), e — para aterrorizar os potenciais consumidores —, imprensa, pais e professores divulgavam notícias falsas sobre rapazes que consumiram ácido e tinham ficado cegos olhando o sol. A história que convenceu o jovem Pollan a não se arriscar circulou no início dos anos setenta e garantia que o consumo de LSD podia “danificar os cromossomos”.
“Muitos leitores com problemas me pediram ajuda para participar de um teste clínico”
No livro, o jornalista afirma que é praticamente impossível morrer de overdose dessa droga ou de psilocibina, e que nenhuma das duas substâncias é viciante. “Depois de experimentá-las uma vez, os animais não procuram uma segunda dose, e o uso repetido por parte das pessoas reduz seu efeito. É verdade que as experiências aterrorizantes que algumas pessoas viveram com as drogas psicodélicas podem arrastá-las para estados psicóticos, razão pela qual ninguém com antecedentes familiares ou predisposição para doenças mentais deve tomá-las”. Também é verdade que as pessoas podem fazer coisas realmente estúpidas sob sua influência. Coisas como atravessar a rua sem olhar, se jogar no vazio ou se suicidar. “As viagens ruins são muito reais e podem se tornar uma das experiências mais difíceis da vida. Por isso é importante saber o que pode acontecer quando essas drogas são usadas em situações não controladas, sem prestar atenção na atitude e no lugar, ao contrário do que acontece em condições clínicas, depois de um cuidadoso exame e sob supervisão. Desde que a pesquisa controlada foi reativada a partir da década de 1990, quase 1.000 voluntários receberam doses e nenhum único evento adverso grave foi relatado”.
Aqui está uma questão chave: Pollan não fala em seu livro sobre o uso recreativo das drogas, nem sobre tomá-las para dar uma volta pelos bares, mas sobre seu uso sob supervisão médica. “O afã evangelizador de Leary confundiu tudo ao apagar a fronteira entre a ciência e a festa”, adverte. Os psiconautas mais viajados dão grande importância a dois conceitos: o set (estado mental em que se está no momento do consumo) e o setting (condições ambientais). As experiências descritas no livro são realizadas em locais semelhantes ao silencioso consultório de um dentista, com o paciente deitado, com fones de ouvido, música suave e uma máscara para favorecer a introspecção.
É assim que se trabalha há anos em instituições como as universidades de Nova York, Los Angeles, Novo México, Zurique ou o Imperial College de Londres, que tem um programa que estuda a influência dos psicoativos na atividade cerebral. Em setembro, especialistas da Johns Hopkins pediram às autoridades norte-americanas que retirassem a psilocibina da relação das drogas mais perigosas (onde figura desde 1970 ao lado da heroína) para colocá-la ao lado do Valium e do Xanax na categoria IV de substâncias com baixo potencial de abuso ou dependência. Para Pollan, a proibição do uso científico das drogas psicodélicas durante décadas como consequência dos excessos dos hippies nos anos sessenta é como se tivessem feito desaparecer a morfina do armário de medicamentos dos médicos em resposta aos estragos da heroína.
Em Como Mudar Sua Mente desfila uma galeria de personagens excêntricos que passaram suas vidas lutando para mudar isso: além de Hofmann e Leary, o leitor descobre figuras como Paul Stamets, que confia na inteligência dos cogumelos (e não só dos alucinógenos) para salvar o mundo (ele tem uma palestra no TED que ultrapassou 4,5 milhões de visitas); Al Hubbard, que introduziu cerca de 6.000 pessoas no LSD entre 1951 e 1966 e ajudou a definir o protocolo terapêutico que permanece até hoje; e Myron Stolaroff, que deixou um cargo de direção na Ampex, empresa pioneira de Silicon Valley, para se dedicar à pesquisa lisérgica. O ensaio é também um testemunho da obstinação da geração do baby boom, nascida durante a bonança que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Muitos daqueles que se envolveram com estas substâncias pela primeira vez também estão por trás do ressurgimento dos últimos anos.
Depois de ouvir histórias de experiências “místicas e cheias de significado” de uma dúzia de pessoas, Pollan se sentiu preparado para vencer o medo e provar “sob supervisão” uma dose alta de três substâncias: LSD, psilocibina e DMT. No livro ele deixa de fora drogas sobre as quais não existem estudos científicos, como a ayahuasca (que está experimentando um boom também fora dos países da América do Sul, onde é usada há séculos) ou microdoses de LSD, cujo ritual — tomar em dias alternados quantidades imperceptíveis da substância — faz furor no Silicon Valley como ferramenta para melhorar o desempenho e a criatividade. (Pollan vê nisto uma lógica perversa: “É a manobra típica do capitalismo, pegam uma droga como o LSD, com um alto poder subversivo e anti-hierárquico, e a transformam em algo produtivo e útil, como tomar um café”).
Para as suas viagens, explica o jornalista, teria preferido participar como voluntário em um dos testes experimentais de uma universidade que estivesse “perto do pronto-socorro de um hospital”, mas estes não aceitam “pessoas de saúde normal”. Ele teve de recorrer ao grupo subterrâneo dos orientadores psicodélicos que trabalham na clandestinidade; prepararam os voluntários, os acompanham durante a experiência e lhes dão conselhos a posteriori para assimilarem o vivido. Ele contou com a ajuda de Fritz, um alemão que vive nas montanhas; Mary, “uma mulher de sessenta e poucos anos, sóbria e compassiva”, e Rocío, “terapeuta mexicana de 35 anos”.
O capítulo em que conta isto, intitulado Diário de Viagem, é “o mais pessoal” que já escreveu, acostumado como jornalista a falar mais sobre o que acontece com os outros do que a respeito do que acontece em sua mente. Em seus experimentos, ele descreve “uma torrente de amor” por todos os membros de sua família, se funde com uma suíte para violoncelo de Bach e sente desaparecer, “desintegrado em uma nuvem de confetes por uma força explosiva que não pôde localizar” em sua cabeça. Essas páginas também estão entre as mais embaraçosas do livro. Como quando descreve um desejo de urinar no meio de uma viagem. “O arco de líquido que emiti era, realmente, a coisa mais linda que tinha visto na vida, uma cascata de diamantes caindo em uma piscina, rompendo sua superfície em um bilhão de sonoros fractais de luz”, anota. “Me obriguei a não me deixar vencer pela vergonha”, desculpou-se durante a entrevista. “Não é fácil narrar uma experiência em essência inefável. E depois tem o fato de que a maior parte do meu público nunca passou por isso, então eu tive de ser muito didático”. A partir da leitura de suas aventuras, fica a sensação de que Pollan, que não voltou a experimentar drogas novamente, permanece às portas da experiência mística que estava procurando.
Ao medo de alienar seus seguidores, mais acostumados a ler seus textos sobre o cultivo extensivo de milho em Iowa ou o lento cozimento da carne de porco, foram acrescentadas as preocupações legais. “Tinha medo de colocar os orientadores em risco”. Antes da publicação, revisou o texto “com dois advogados”. O ensaio foi publicado nos Estados Unidos em maio, com ampla repercussão na imprensa e uma “surpreendente recepção crítica e comercial”. “E isso que diziam que livros sobre drogas não vendem bem”, comenta. “Recebi muitos telefonemas e mensagens de leitores que sofrem de ansiedade, depressão, medo ou algum tipo de vício, e que me pedem ajuda para saber como participar de um experimento. Neste momento, receio, a demanda supera em muito a oferta”.
Perguntado se acha que essa recepção confirma que o renascimento psicodélico é um fenômeno sem volta, responde: “Diria que sim, especialmente por causa da crise mundial de saúde mental que estamos vivendo. Precisamos de respostas alternativas. Não houve nenhum avanço relevante nesse campo desde a descoberta dos antidepressivos no fim da década de oitenta. Estamos mais perto do dia em que o uso medicinal das drogas psicodélicas será permitido do que quando comecei o livro”.
Para tanto, poderia ajudar, acrescenta, o fato de que no contexto da guerra contra as drogas as psicodélicas estão longe da primeira linha de batalha de substâncias como os opiáceos ou a cocaína. “As empresas farmacêuticas tampouco parecem ansiosas para entrar: não são rentáveis, não há patentes para explorar e não podem ser tomadas todos os dias. E já se sabe: as grandes empresas estão muito mais interessadas nas drogas de que você depende todos os dias”.

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